PRIVATIZAÇÃO DOS GASODUTOS DA TAG PODERÁ SER UM GRAVE ERRO ESTRATÉGICO PARA A PETROBRÁS

O esforço que o Presidente da  Petrobrás, Pedro Parente está fazendo para privatizar alguns setores da companhia, dentro de um plano elaborado e sugerido pela diretoria de estratégia comandada pelo Diretor  Nelson Silva, precisará de uma explicação bem clara quando se refere a venda da TAG. Desde ontem (26) a Petrobrás está recebendo propostas para vender a empresa. Internamente é esperado que ela seja vendida  por US$ 6 bilhões. Algumas empresas, obviamente, se mostraram interessadas na aquisição, principalmente pelo mercado futuro que virá proporcionado pela Lei do Gás, em tramitação, e fundamentalmente pela gigantesca produção de gás do pré-sal. Estes  são os grupos que  devem apresentar propostas:  Mubadala, Engie, Pátria Investimentos e Macquarie. O banco australiano Macquarie ganhou força no processo, com a entrada do Itaúsa, braço de investimentos do Itaú Unibanco e da Brasil Warrant, da família Moreira Salles, no consórcio para a compra do gasoduto, de acordo com fontes do Petronotícias. Com a venda da TAG, a Petrobrás não terá  uma rede de gasodutos própria. Para transportar o gás as condições  serão baseadas com o modo  pague se não usar e pague mais se usar mais do que a capacidade contratada. Recentemente a Petrobrás vendeu a NTS, outra rede de gasodutos, por US$ 5,2 bilhões. A TAG é mais do que o dobro do tamanho da NTS e deverá ser entregue por US$ 6 bilhões. Pelo menos é este o número que as empresas que participação desse leilão está trabalhando. Quanto passará a valer a NTS e a TAG quando o gás do pré-sal chegar? Uma estratégia muito bem elaborada. Mas, com certeza, não será a Petrobrás a beneficiada.

Nelson Silva

Nelson Silva

Para lembrar, veja o tamanho da A TAG: seus gasodutos começam  no terminal de Cabiúnas, em  Macaé, no Rio de Janeiro e vai até o Pecém, no Ceará,  em uma rede integrada passando pelos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. E ainda  o gasoduto isolado de Urucu-Manaus, no Amazonas. A TAG possui ainda muitos gasodutos que estão aglutinados em contratos de transporte de gás ou GTA (gas transport agreements). Os principais são: o Gasene, Malhas do Nordeste, Pilar-Ipojuca e o Urucu-Manaus.

A TAG registrou no ano passado uma receita líquida de R$ 4,7 bilhões e uma geração de caixa operacional, medida pelo Ebitda, de R$ 4,1 bilhões. Atualmente para se transportar a molécula pode chegar ao custo em torno de  US$10/ MM BTU e o transporte, dependendo em quantos contratos tem que passar para chegar ao destino, US$1,5/MM BTU. A  TAG pode transportar aproximadamente 75 MM m3/d.

Está cada vez mais difícil compreender as decisões da Petrobrás na área do gás. Parece carecas brigando por pente. Um exemplo é a paralisação do  terminal de regaseificação  da Baía de Guanabara  e transferir suas operações para a Bahia porque o governo do Rio de Janeiro aumentou o ICMS para 18 %.  Será que o EVTE (Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica)  não fez esta previsão? Não havia acordo com o governo ? Quanto esta custando levar o gás até a Bahia ? Quanto se está gastando de energia para mandar o gás para o Rio de Janeiro ? Quanto está pagando à TAG para trazer este  gás ? Qual é o custo da desmobilização das equipes ? Qual o custo da manutenção de um terminal parado ?  Mais caro ou mais barato do que os 18 % de ICMS ? Alguém fez esta conta ?

11A Petrobrás paga pelo volume que contratou, independentemente de quanto ela transporta a menos desse volume. É um contrato “ship or pay”. O mesmo que ocorre hoje com os gasodutos da NTS, vendida pela estatal. Ela vendeu os gasodutos abaixo do preço real da malha, deixou de arrecadar,  paga se não usar e paga bem mais se usar. E é o que vai acontecer  com a TAG. Entregará uma rede de gasodutos que vai do Rio ao Ceará, com várias interligações, recebendo um preço muito abaixo do valor do ativo.  O caso fica ainda mais interessante e digno de olhares mais atentos e  investigativos quando se compara os custos  de construção da rede de dutos com o valor da venda da TAG. Isso sem contar com os custos dos investimentos  da  construção do Gasoduto Urucu- Manaus, em 2006, mais R$2,2 Bilhões; Mais de R$ 1,1 Bilhão do Ipojuca-Pilar, em 2008, Gasene, etc.  Para se ter uma ideia comparativa veja o que a  estatal pagou apenas pelos seus últimos três grandes projetos de construção de gasodutos: Rota 3, ainda em construção, Gasduc III e Gastau. Somando-se o  investimento, mesmo levando-se em conta a depreciação, os valores atuais apenas desses ativos citados, somados a toda a rede espalhada do Rio ao Ceará e o gasoduto Urucu-Manaus, tudo somado,   passaria em muito  o valor que será arrecadado pela venda da TAG. Se for considerado ainda a perspectiva da empresa com o gás  pré-sal, pode se imaginar o tamanho do prejuízo que a Petrobrás terá.

O Gasoduto Rota 3 possui aproximadamente 355km de extensão total, sendo 307km referentes ao trecho marítimo e 48km referentes ao trecho terrestre, e escoará gás natural do Polo Pré-Sal da Bacia de Santos até o Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí. A vazão de escoamento do gasoduto é de aproximadamente 18 milhões de m³ por dia. Uma empresa de São Paulo  vai receber R$ 215,160 milhões para fazer a obra, fora os 40 km de tubos que serão pagos à Tenaris e  a parte marítima está sendo construída pela holandesa  All Seas. O investimento é a superior a R$ 2,5 bilhões.

Túnel do Gasduc III

Túnel do Gasduc III

O Gasduc III, ligando Cabiúnas, em Macaé,  à Reduc, em Caxias,  tem 179 quilômetros de extensão e foi inaugurado pelo ex-Presidente Lula, a um custo total de R$ 2,54 bilhões. Ele é o gasoduto com maior capacidade de transporte de gás porque usa tubos de 38 polegadas e é capaz de transportar 40 milhões de m³ por dia, superando  o Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), que tem 32 polegadas e capacidade de transportar 30 milhões m³ por dia de gás natural. O gasoduto pode transportar o gás natural produzido nas bacias de Campos e Espírito Santo, o gás importado da Bolívia, que chega ao Rio de Janeiro por meio dos gasodutos Campinas-Rio e do Japeri-Reduc,  e o gás proveniente do Terminal de Regaseificação de gás natural liquefeito (GNL) da Baía de Guanabara. Com a conclusão do gasoduto Caraguatatuba-Taubaté (Gastau), o Gasduc III também pode receber o gás procedente da Bacia de Santos. O gasoduto possui um trecho construído sob a Serra de Santana no município de Cachoeiras de Macacu.  O túnel tem 3.758 metros de extensão, 6,2 metros de altura e 7,2 metros de largura e foi o primeiro a receber a tecnologia de lançamento de tubos em túneis.

O  Gastau,  Gasoduto Caraguatatuba/Taubaté,  foi uma das mais importantes obras de infraestrutura para a ampliação da oferta de gás natural no Sudeste, escoando

Gasoduto no Túnel do Gastau

Gasoduto no Túnel do Gastau

parte da produção da bacia de Santos. O projeto custou R$ 2 bilhões e também usou um túnel  de 5 quilômetros para cruzar a Serra do Mar, onde também foi usada a tecnologia de lançamento de dutos  com níveis ainda mais sofisticados. Através desse gasoduto a Petrobrás transporta de 10 a 13 milhões de m³ de gás por dia. A estrutura se conecta ao gasoduto Campinas-Rio, usando tubulações de 28 polegadas trazendo o gás  dos campos  de Mexilhão e de Lula.

Além de tudo tem a Lei do Gás que está tramitando garante ao transportador  uma remuneração suficiente para seu investimento (lucro) mediante reajuste tarifário periódico. Trata-se de um negócio de retorno garantido, sem riscos para o proprietário dos gasodutos, tanto para a  NTS quanto para a  TAG. Por que a Petrobras deve sair de um nicho de negócios sem riscos e entregar lucro garantido, para assumir ela própria os riscos da mudança na regulação? A ANP manifestou sua intenção de atualizar o marco regulatório da tarifação de transporte de gás, passando do valor fixo para um valor variável segundo a distância transportada. Isto afeta diretamente os interesses da Petrobrás que deverá pagar mais para integrar o gás do Pré-Sal à malha de dutos remanescente. Vender um ativo com tantas perspectivas de ganho futuro, entregando para a empresa privada um bem estratégico que fará falta no futuro, tirando a independência para escoar bilhões de m³ de gás do pré-sal. É o caso de se lembrar o nosso Galvão Bueno: Pode isso, Arnaldo?

Fonte: PetroNotícias